Assinatura RSS

Arquivo da categoria: COM O CÉREBRO ENTRE OS TRÓPICOS

LIVRO DIGITAL: “COM O CÉREBRO ENTRE OS TRÓPICOS” (ENSAIOS E ARTIGOS)

Publicado em

A ordenação que se segue no percurso da reunião dos textos, ensaios e artigos encontrados neste volume Com o cérebro entre os trópicos, que foi tomando alguma forma no raio de 2002 e janeiro de 2008, fora tecida não sem o diálogo com a tradição filosófica do pensamento moderno ocidental como encontramos em um dos artigos reunidos aqui de nome Entre Hegel, Marx, Bakunin e o filme O preço da ambição, em que as noções de reconhecimento e trabalho tratadas por Hegel e Marx, na Fenomenologia do Espírito e nos Manuscritos Econômico-filosóficos são os aspectos a serem perseguidos, fixando-se no problema da distinção da noção de reconhecimento em Hegel, Bakunin e no filme O preço da ambição de 1994, com Kevin Spacey (Beleza AmericanaA vida de David Gale).

Neste movimento de diálogo com a tradição filosófica do pensamento moderno ocidental, não é de nosso alvitre lançar ao esquecimento a perspectiva de que, ao fixarmos olhar em nossa experiência histórica, o que não nos afeta é justo a distância em relação a certo fio de pensamento que encontra em nomes como Tom Zé, Sérgio Buarque e Manguebeat, referências de uma mesma tradição de pensamento no Brasil. A saber, Com o cérebro entre os trópicos inscreve-se justo do lado oposto a algo como o emblema que aparece na obra de Rubem Fonseca, Áureo de Negromonte, o encantado com a nobreza do estrangeiro para o qual o pensar é mero adorno, signo de ostentação espalhafatosa: “meus canutilhos, meus paetês, meus estresses… tudo importado, do melhor…”

Neste sentido, Com o cérebro entre os trópicos se move não sem desvios, desde uma dinâmica atenta ao percurso dos vôos afrociberdélicos funkeados, sampleados e sambeados da Nação Zumbi e Orquestra Manguefônica, algo estranho ao fascínio de Áureo de Negromonte com o estrangeiro. Traço este deveras fixado nas vísceras de nossa experiência histórica e situado – incongruentemente, enquanto fascínio que embota o pensar – entre as zonas tórridas do planeta demarcadas pelos paralelos de Câncer e Capricórnio.

No artigo A cidade na ótica de Chico Science, percorremos uma interpretação do texto A cidade da canção de Chico Science & Nação Zumbi encontrada no álbum Da lama ao caos de 1994. Através do samba groove guitarrado swingado A cidade, acabamos por percorrer problemas que atravessam e persistem em nosso raio histórico, tais como o vínculo entre vigilância oficial e continuidade dos abismos sociais, sobretudo no que diz respeito à fotografia e sua relação com a identificação oficial do corpo e do indivíduo nos grandes centros e subúrbios urbanos, bem como, nos lançamos ao problema de pensarmos no sentido e horizonte, por nossas terras, em que se fixam as mediações cambiantes para a continuidade e prevalência de nossas fantasmagóricas bizarrices e incongruências sociais, sobretudo no que se refere à dimensão econômica, social e cultural.

No breve artigo de nome Mutantes, Picassos Falsos e Nação Zumbi: fios avessos de um mesmo tecido, percorremos indícios que demarcam o trabalho dos pernambucanos como antenado àquela tradição da música pop no Brasil que vai desde Os Mutantes nas décadas de 60 e 70, passando pelos Picassos Falsos na década de 80, até a década de 90 do século passado com o Manguebeat, procurando situar algumas de suas referências sonoras, sobretudo no que diz respeito às articulações entre influências globais como o rock, o funk, o dub e o soul, com certas referências territoriais, regionais ou nacionais como o samba e o repente. Ainda neste papo sobre som, apresentamos o artigo Tecnologia & música pop: o novo em experimento, em que percorremos algumas das possibilidades de relação entre as transformações tecnológicas e a música pop.

Em Experiência brasileira: entre Tom Zé, Sérgio Buarque e Aracruz Celulose, há um interesse em demarcar o sentido de “moderno”, “época moderna”, na leitura da experiência histórica brasileira. Nesta direção, nos fixamos no problema do sentido de falarmos que no Brasil estamos vivendo em um período moderno, tal como nos referimos à experiência histórica do hemisfério norte. Todavia, nos atentamos ao vínculo deste problema em relação ao horizonte de uso da terra no Brasil como aquele alvo do prometéico e feroz discurso de desenvolvimento e progresso.

O homem que comia diamantes: a fantasmagoria do arcaico sobre o moderno, move-se por entre as intersecções e mediações da literatura e do ensaísmo enquanto forma do pensar, que no Brasil se posicionaram radical e ironicamente em relação àquele outro modo de pensamento, que em sua forma por nossas terras, não passa de tema para caricatura, objeto de escárnio senão como aquele saber espalhafatoso, ostentoso, como signo de distinção cultural fundado que é no encobrimento da criação como culpa, que o lança para compensar, ao mero e raso fascínio com o estrangeiro em nossa experiência histórica.

O artigo Filosofia, a encruzilhada do conhecer, entre a criação e  a técnica realizou-se a partir de leituras do livro Conhecer é criar de Gilvan Fogel. Tais leituras ecoaram quando da oportunidade do contato com um breve artigo de Heidegger de nome Que é isto – a filosofia? O artigo que ora apresentamos trata de temas como a distinção da filosofia em relação à ciência, bem como, caminha em direção de demarcar como os afetos, o humor, dito de outro modo, a disposição, abrem o ser humano para o ser das coisas desta ou daquela maneira, algo que caminha em outra direção em relação à perspectiva da ciência, que demarca o ser das coisas desde a quantificação e repetibilidade dos fenômenos na natureza.

Em Ciência, natureza e sociedade nos lançamos à perspectiva de relacionar os temas propostos a partir de passagens do ensaio Racionalidade Tecnológica e Lógica da Dominação, de Herbert Marcuse, encontrado no livro Ideologia da Sociedade Industrial, com observações encontradas no artigo Que é isto – a filosofia? As relações entre natureza, sociedade e ciência, para não se deterem em abstrações sem algum rumo, caminham no sentido de aproximar algumas das posições de Marcuse em relação ao emprego da ciência e da técnica no mundo moderno, com a questão dos alimentos transgênicos, os organismos geneticamente modificados, e temas como a divisão técnica do trabalho, de certo problemas cristalizados em nosso raio histórico aos quais não escolhemos não ser afetados.

Com o cérebro entre os trópicos, além dos textos brevemente comentados compõe-se ainda dos artigos: Orquestra Manguefônica, Neoliberalismo e a negação do agir ético; Do conluio entre política, dissimulação e violência; Da relação entre o combate e o fogo no pensamento de Heráclito; Trabalho e manipulação do corpo e das vontades; Educação e sociedade: entre a técnica e a ojeriza ao pensar; A educação no ES: entre a lascívia da mediocridade e o fascínio pelo estrangeiro.

Nesta reunião de artigos, textos, ensaios, nossa perspectiva é fisgada pelo movimento de ser afetado por nossa experiência histórica não sob a ótica do fascínio ou da pena de pavão, mas de outro modo, que atende pela alcunha do sonoro Com o cérebro não tão somente ou meramente entre os trópicos, mas por mediação da literatura ao manguebeat, do ensaísmo à filosofia.

FAÇA O DOWNLOAD DO LIVRO NA PLATAFORMA SCRIBD
LIVRO DIGITAL: "COM O CÉREBRO ENTRE OS TRÓPICOS"